Pontos de ônibus são invadidos por micro-histórias em papel colorido

28/05/2012

(Os ortodoxos que me perdoem, mas a corujice falou mais alto. O artigo abaixo, do Rodolfo Lucena, colunista da Folha, e que saiu no jornal de domingo, é sobre o maravilhoso trabalho de minha filha Laura.)

Pensei que fossem poemas, retalhos de poesia, quando vi pela primeira vez os pequenos textos impressos em papel colorido e colados em pontos de ônibus da zona oeste de São Paulo. Mas não. “São microrroteiros”, corrige a criadora dessas historinhas, Laura Guimarães, 34, figura miúda de cabelos pretos encaracolados.

Laura Guimarães

Laura Guimarães em um ponto de ônibus na avenida Sumaré, zona oeste, onde colou cartazes

Alguns deles têm um quê de erótico: “nunca trairia seu marido. faltava coragem. mas não abria mão do ritual de pendurar as calcinhas para fora da janela enquanto o vizinho observava”. Há os que refletem a balbúrdia da metrópole: “distrai do farol com a lua cheia. som de buzina. no carro de trás não viram o céu”.

Outros descrevem, sempre com letras minúsculas, um certo caos interior: “lembrou que esqueceu. esqueceu de novo. só foi lembrar quando não dava mais tempo”.

Profissionalmente, Laura faz roteiros para vídeos institucionais. Começou seus “micros” como um exercício de criatividade. Um desafio em tempos de Twitter e seus 140 caracteres. Conta o que vê. “A maioria das histórias aconteceu. Ou não. Tem umas mais podreiras que eu digo que não aconteceram”, diz.

O primeiro texto surgiu em 2009. Voltando de Campos do Jordão (SP), olhou pela janela do ônibus e viu a cena, que registrou no caderno: “Domingo à tarde, debaixo de muita chuva, um homem colhe flores na beira da estrada”. Ainda anotou: “Início, meio ou final?”. Concluiu que era uma história completa e assim começavam os microrroteiros, que hoje somam mais de 300 no Twitter (twitter.com/nopassodroteiro).

A produção para o mundo digital, porém, não lhe bastava. “Sou inquieta, preciso estar sempre fazendo uma coisa nova”, diz ela, que achou no lambe-lambe o novo meio de que precisava.

Num zás colocou a ideia em prática: “Pensei numa terça-feira e no sábado já comecei, em 2010. Uns amigos deram a dica de usar papel colorido, mas os primeiros lambes eram numa letra bem tosquinha…”.

Na primeira colagem, na rua Teodoro Sampaio (zona oeste), teve o apoio de dois amigos. “Foi uma aventura. Passava polícia.” Depois começou a colar sozinha. “Até tenho, às vezes, algum receio. A polícia já mandou tirar. Já teve gente que brigou comigo, falou que eu estava sujando a cidade.”

Hoje, Laura carrega na mochila os cartazetes, tubo de cola com água e um rolinho desses de pintar. Quando dá vontade, para e cola seus microrroteiros.

“Quero que as pessoas tenham algo para ler enquanto esperam o ônibus. Acho importante o contato com a cultura. A leitura instiga a imaginação”, diz ela, que não se vê como transgressora. “A arte de rua não vai contra nada. É a favor de todo mundo.”

Como outras coisas na metrópole, ela acredita que, algumas vezes, os lambe-lambes podem passar despercebidos. “Acho que a maioria nem vê meus textos. Mas, se alguém ler e imaginar uma cena, acho interessante.”

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