SOBRE UTOPIAS E ARTE NA CIDADE

25/11/2010

(o texto abaixo, lindo, foi reproduzido de blog No Passo do Roteiro. Vale a pena passar lá de vez em quando para acompanhar o trabalho da artista.)


Ilustração: série de fotos na av. Paulista, de Mônica Rodrigues Fernandes

Domingo de sol, meia horinha de caminhada na Paulista, um homem toca jazz na frente do Center 3, dois travestis entretém os pedestres, alguns assistem o show de rock dentro do Trianon, outros, o de música indígena na frente do parque. Arte na rua. São Paulo.

mais amor por favor.

Depois da primeira colagem dos Microrroteiros com clima hostil, esta frase me veio à cabeça. Nem tava ali, na hora, nos lambe-lambes e pixações do artista Ygor Marotta, mas lembrei dela como a síntese perfeita do que parecia tá se perdendo.

Na Praça do Patriarca, um sósia do Bob Marley recita poesias para uma roda que se forma. No mesmo lugar, seu José, morador de rua, canta uma moda de viola de sua infância, e Juninho põe a galera pra dançar com uma performance de Beat Box e Gaita. Eles passavam pela praça e aceitaram o convite dos palhaços Adão e Gastão para entrar na Roda dos Artistas.

mais amor por favor. Lembrei desta frase depois de uma colagem onde meus lambes pareciam o extremo oposto dos postes cinzas. Não gosto de extremos. Lembrei de novo, ao ler a notícia das agressões dos jovens na Paulista. Lembrei muito nas últimas semanas. Finalmente me dispus a escrever o que tava coçando há tempos, ao lembrar mais amor por favor, enquanto lia a matéria do site UOL: Prefeitura expulsa artistas de rua da av. Paulista; para jurista, proibição é “ato nazista”.


Segundo a matéria, a população é contra tirar os artistas das ruas. Isso é bom.

A maioria dos entrevistados justificou ser contra o ato em solidariedade aos artistas, que precisam sobreviver do seu trabalho. Isso é bom? Claro. Eles realmente precisam sobreviver, e é bacana ver que as pessoas ainda se importam.

Ao mesmo tempo, essa justificativa foi um ponto que me incomodou bastante. Como um raciocínio incompleto, que revela a crença das pessoas num papel injustamente secundário para a Arte. Posso estar enganada, mas é isso que me coça há tempos.

Arte na rua.

O papel da Arte não é ser o meio de sobrevivência do artista. O pagamento é (e deveria ser levado mais a sério, ser mais justo) uma conseqüência direta do seu trabalho, remuneração da profissão, como qualquer outra.

Assim como o papel da Medicina é salvar vidas (entre outros), o papel da Arte é emocionar, fazer refletir, questionar, divertir, dialogar por outros meios, gostar, não gostar. Influir diretamente na formação de um ser humano mais capaz.


E Situação ou Oposição, até onde eu sei, a liberdade de expressão e o próprio contato diário com a cultura são a favor de todo mundo.

Por que não na rua?

Postes e muros de São Paulo foram pintados de cinza. Ou melhor – sem sacanagem, mas vamos assumir – cor de burro quando foge parece uma boa definição praquela tinta.


mais amor.

Por que a melhor alternativa para uma cidade-casa de milhares de artistas, com toda a sua diversidade cultural característica e essa cara urbana caótica, é tirar a arte das ruas? Manter somente o cinza e o barulhinho do trânsito, da construção, do mala que acelera o motor na sua janela?

Adoro o cinza paulistano, mas tem cinzas e cinzas pra se trabalhar. E alguns – muitos – casam perfeitamente com Arte.

No bairro de Pinheiros, pequenos pedaços de fita crepe colados na calçada pelo pessoal do Aprendiz, formavam o desenho de uma árvore e nos faziam lembrar a existência delas. Talvez, até mais do que as árvores reais que esquecemos, apressados, mirando a calçada.

Convido você pra participar da minha utopia. Utopia de uma leiga total em questões sociais e econômicas. Mas que adora observar. E sonha.

Não é melhor admirar um painel de grafites, preso no trânsito, do que uma parede vazia? Ou ler um texto, uma poesia, assistir uma performance, do que pensar na morte da bezerra enquanto espera o ônibus?

São Paulo é urbana, contemporânea, casa de milhares de artistas. Arte de rua é a cara de São Paulo.

Entra na minha utopia. Imagina uma revolução cultural na cidade, onde a sujeira e o vazio são preenchidos com arte. Mais do que hoje. Incentivar, não reprimir. Grafite, música, teatro, dança, literatura, mágica. A internet tá cheia disso, por que não a rua?

Na minha utopia, conseguiríamos nos desvencilhar da ameaça pão-e-circo e nos convenceríamos da importância de toda forma de expressão artística, como parte da educação cotidiana. O acesso de todos à toda arte. Do gargalhar ao refletir. Da elaborada ao improviso. Da patrocinada àquela que nasce na rua e que só poderia ter nascido ali. Arte livre na expressão.

Cultura é ruim pra cidade? Pra população? Pro comércio, pra segurança, pro turismo? Cultura é contra o que, afinal? E não to falando de pintar a casa do outro sem permissão ou interferir na obra de arte alheia. Tô falando de usar os espaços que a cidade dispõe. Palcos e murais.


Utopia, utopia.

Como alertado, quem vos fala é uma leiga. E sonhadora. Na liberdade de usar seu blog para se expressar. Mas, numa boa. Será que não chegou a hora das pessoas que sabem, começarem a trabalhar mais seriamente para mostrar o real valor da Cultura?

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Uma resposta to “SOBRE UTOPIAS E ARTE NA CIDADE”

  1. [...] This post was mentioned on Twitter by Fernando Guimarães, Laboratório Dr Nin. Laboratório Dr Nin said: SOBRE UTOPIAS E ARTE NA CIDADE : http://wp.me/p10M1b-6z [...]

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